Quando vamos aprender?

Elza Ramos
Divulgação

Vivemos intensamente aquartelados há sete meses. Isolados em nossos quartéis lares, com portas lacradas aos visitantes e parentes. O Pantanal pegando fogo, a Amazônia pegando fogo, a Chapada Diamantina pegando fogo ... terras indígenas invadidas, povo preto sendo fuzilado ou asfixiado, mulheres assassinadas, espancadas... templos invadidos e depredados, queimados ... pessoas sendo humilhadas, apontadas e impedidas de ir e vir, por causa de suas vestes religiosas por brancas serem. E não aprendemos nada?

A pandemia fez o pandemônio no mundo, ah! Mas no Brasil, com todo seu superlativismo de colonizado tem feito muito mais... passamos de 150.000 mortos e um rebanho de gado adestrado pela ideologia dos fake news das redes sociais ratifica que não é bem assim. E segue a vida cloroquínica e ivermectínica se aglomerando e dançando e curtindo e viajando e festando. E só para pra pensar quando morre um seu chegado por amizade ou parentesco. E logo surgem as desculpas “da doença” da negação: mas ela era fumante; ele não se cuidou; aquele era diabético ... e lá vem o Brasil descendo a ladeira.

Artistas dos mais diversos recantos passando necessidades e tentando se reinventarem. Quilômetros de desempregados em busca da esmola emergencial. Campanhas de solidariedade para distribuição de cestas básicas, material de higiene, remédios... E não aprendemos nada?

A cultura foi desmantelada. O meio ambiente fez do boi, bombeiro. A Fundação Palmares apaga a memória dos negros ilustres porque o foram para se aproveitarem politicamente. E o gado segue cego ... e lá vem o Brasil descendo a ladeira.

Pior que tudo: não há reflexão do porquê do pandemônio pandemia? O foco continua sendo o roubo do dinheiro dos respiradores superfaturados sem licitação ou o poder da caneta que solta o traficante ou o desvio do dinheiro da educação para outros fins ou a declaração de calamidade pública para conseguir verba para campanha? E não aprendemos nada?

A sede por dinheiro e/ou poder não tem permitido aos brasileiros enxergarem que o foco de luz tem que deixar de estar direcionado ao próprio umbigo de cada um e se voltar ao coletivo. Todos juntos pelo bem comum e com discernimento para não continuarem seguindo a boiada. Mais fraternos, mais afetivos, mais empáticos, mais respeitosos, mais democráticos e mais gente. Só assim conseguiremos fazer o Brasil começar a subir a ladeira.

O Criador nos criou a todos, inclusive os que Nele não acreditam. Somos frutos da mesma origem. Somos filhos do mesmo Pai. Somos irmãos, queiramos ou não. A dor do outro é a dor do NOSSO irmão, independente da fé que ela/ele professa; independente da ideologia política; independente de para qual time torce; independente da escolaridade; independente da situação econômica ou financeira; independente de gênero; independente de cor, somos todos brasileiros e estamos navegando em mesmas águas, embora em barcos dos mais diversos tamanhos e calados.

Hoje, especialmente indignada com vídeos que me fizeram ter náuseas, onde o primeiro mostrava um grupo de candomblecistas sendo hostilizados e agredidos no metrô de Salvador só porque estavam vestidos de branco e com suas guias no pescoço e outro mais nauseante ainda, onde um homem esmurrava vigorosamente o rosto de uma mulher que chorava e pedia pra ele ir embora, em Ilhéus, parei e tive o ímpeto de compartilhar ambos, acrescidos de comentários inflamados.

Ao refletir preferi não ampliar a divulgação de imagens tão chocantes e violentas e sim escrever algo que talvez pareça piegas a alguns, mas que poderá, quem sabe, tocar a uns poucos que ainda tenham em si as centelhas divinas minimamente acesas e possam somente com suas atitudes, aliviarem tantas dores que assolam nossa terra. Quem sabe assim, ao olharmos para o próximo à nossa volta com respeito e compaixão, possamos começar a tomar consciência  do que o Criador está tentando nos mostrar. E aí, sim, começaremos a aprender. Avante!

A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá